Geovanni: "Sporting vai ser mais difícil que o Manchester" (Exclusivo)

Antigo jogador do Benfica antevê ao Relvado os dois próximos jogos das águias e fala com saudade mas

Geovanni, médio brasileiro que passou pelo Benfica entre 2002 e 2006, deixou boas recordações aos adeptos do Benfica. Que ainda hoje recordam com saudade dois grandes momentos que o "Soneca" viveu de águia ao peito: o golo marcado ao Manchester United, em 2005/06, essencial nessa grande vitória por 2-1, na Luz e outro golo, frente ao Sporting, em Alvalade, na temporada de 2003/04. Este último garantiu o segundo lugar das águias e o consequente apuramento direto para a Liga dos Campeões.

Em entrevista ao Relvado, o futebolista de 31 anos que atualmente representa o Vitória da Baía relembra esses e outros momentos passados em Portugal. Com saudade, mas também alguma mágoa. Faz a antevisão dos dois próximos encontros dos encarnados, precisamente frente a Manchester United e Sporting e fala da maldita alcunha colocada por Argel, que na sua opinião o prejudicou.

Relvado - Ainda se deve lembrar daquele célebre golo que marcou ao Manchester United...

Geovanni - Com certeza... Lembro-me como se fosse hoje, foi um golo especial, dos mais importantes do Benfica nos últimos anos. Sinto que esse foi um dos pedaços da história que consegui fazer no clube. Infelizmente, desde essa época que o Benfica não chega longe na Liga dos Campeões. Eu fiz a minha parte e fico contente por as pessoas reconhecerem que faço parte da história do Benfica. O Eusébio fez história, o Mozer fez história, o Valdo fez história, o Luisão está fazendo história e eu também fiz história, tal como esses grandes jogadores.

R - Como recorda os anos passados no Benfica?

G - Com muita saudade. Aliás, sempre que posso, vejo os jogos do clube na televisão, principalmente os da Liga dos Campeões, que são os que dão mais aqui no Brasil. Tenho um carinho muito grande pelo clube e pelos torcedores. E sinto que fiz parte de uma grande equipa, com jogadores como Simão, Petit, Nuno Gomes, Ricardo Rocha... Foram sem dúvida anos que marcaram a minha carreira. Quem sabe se em breve não lanço um livro... Uma boa parte teria de ser sobre o Benfica.

R - Não acha que saiu um cedo demais do Benfica?

G - Para falar a verdade, saí até com um pouco de mágoa. Não em relação ao Luís Filipe [o presidente Vieira], com o qual tenho uma ótima relação e converso regularmente. Ele foi como um pai para mim! Mas sim em relação ao José Veiga, que na altura mandava no futebol. Conversámos sobre a renovação de contrato várias vezes, ele dizia que havia interesse do Benfica, mas percebi que era só conversa...

Foi adiando, adiando e eu fartei-me e decidi ir-me embora, até porque recebi uma boa proposta do Cruzeiro. Foi uma pena ter saído assim, fiquei um pouco chateado, mas na vida estas coisas acontecem... Mas atenção, deixei aí muitos amigos: o Luisão, o Alexandre Moura, que era o fisioterapeuta, o senhor Zé da rouparia... Tanta gente boa! Só conseguimos ser campeões [em 2004/05] porque todo o grupo era unido, não eram apenas os jogadores.

R - Entretanto, depois do Manchester United, o Benfica enfrenta o Sporting, na Luz. Para além de ter bisado com o Sporting num jogo da Taça, em 2004/05, marcou um dos melhores golos da sua carreira no tal encontro de finais de 2003/04. Ainda se lembra, suponho...
 

G - Então não havia de me lembrar? Foi um golo fantástico, quando o jogo já estava a acabar e que nos deu a qualificação para a Liga dos Campeões. A verdade é que eu no Benfica sempre fui um jogador que apareceu nos grandes jogos. E atenção, aquele Sporting era muito forte! Tinha o atual selecionador de Portugal, o Paulo Bento, e ainda o Rochemback, o Pedro Barbosa, o Polga... Mas o Benfica da época também era uma grande equipa e felizmente conseguimos chegar a Alvalade e vencer.

R - Esse jogo ficou marcado pela invasão de campo de três adeptos do Sporting, logo a seguir ao seu golo...

G - Fiquei bem assustado! De repente, vimos três torcedores do Sporting com um grande porte físico a correr na nossa direcção, com paus de bandeiras! Incrível como isso aconteceu num estádio moderno como Alvalade. Imaginem se fossem 100! Graças a Deus, um dirigente do Sporting [José Eduardo Bettencourt] conseguiu travá-los e não aconteceu nada de grave.

R - Para além de ter passado por Portugal, esteve vários anos em Inglaterra. Como antevê os encontros com o Manchester United e com o Sporting?

G - Claro que vão ser dois jogos complicados. Nunca é fácil jogar em Old Trafford e com o maior rival da cidade. Em Manchester, acho que o essencial é defender bem, ter paciência e jogar à bola. Mas este Benfica é experiente, está habituado à Liga dos Campeões, não é como o do meu tempo que disputava a competição de quatro em quatro anos. Quanto ao Sporting, é um grande clássico, em que todos os detalhes serão importantes. Mas na minha opinião, o Sporting será mais difícil que o Manchester. Acho que o Benfica tem tudo para sair com a vitória de Old Trafford.

 

Argel não foi nada amigo

R - Afinal de contas, de onde surgiu a alcunha Soneca?

G - Eu na época dormia muito, principalmente à tarde, depois do almoço. O Argel estava sempre a brincar com isso e começou a tratar-me por Soneca. O nome "pegou" e de repente comecei a ser tratado dessa forma. Mas aquilo que era uma brincadeira e que se referia unicamente ao facto de eu dormir muito à tarde passou a ser levado no mau sentido. Transportaram essa alcunha para os jogos, dando a entender que eu por vezes não me esforçava. Nada mais falso, pois fui decisivo em muitos jogos!

R - Sente então que nem sempre foi bem tratado pela imprensa portuguesa...

G - Sim, infelizmente essa é a verdade. Ninguém falou que o meu pai morreu e que o Benfica me obrigou a ficar cá, impedindo-me de ir ao Brasil. E que fiquei cá, joguei e marquei um golo decisivo. Também ninguém falou que a minha mãe morreu, logo no meu primeiro ano em Portugal.

Muitas vezes, um jogador joga menos bem e as pessoas têm de perceber o que está por trás disso. Mas os jornalistas não queriam saber disso. Felizmente, sempre fui um guerreiro e tudo o que conquistei na vida e no futebol foi apenas graças a mim, nunca tive a ajuda de ninguém!

R - Como era o Benfica do seu tempo?

G - O Benfica daquela altura não era o Benfica! Não tínhamos campo para treinar, não tínhamos campo para jogar, a estrutura era péssima, não havia adeptos nos nossos jogos. A única coisa boa é que nos pagavam os salários a tempo e horas. Eu e os meus colegas conseguimos reerguer o clube, que hoje tem um fantástico estádio, um belo centro de estágios e está sempre na briga por títulos.

 

 

Na Baía pelos filhos

R - Para as pessoas aqui em Portugal, é um pouco estranho ver o Geovanni num clube da II Divisão brasileira, até porque só tem 31 anos...

G - Tive duas propostas de clubes da divisão principal, mas as coisas acabaram por não dar certo. Entretanto, surgiu o interesse do Vitória e ainda bem. Estou superfeliz aqui, principalmente por causa dos meus filhos. Como passei vários anos em Inglaterra, eles falam Inglês e felizmente consegui encontrar um bom colégio para eles aqui.

As pessoas podem perguntar: 'Como é que o Geovanni está na Série B?' E eu respondo com outra pergunta: 'Então e os meus filhos?'. Há alturas na vida em que temos de optar pela carreira ou pela família e eu tive de pensar nos meus filhos.

R - Como encontrou o futebol brasileiro neste regresso?

G - Melhorou muito, não tem comparação com o que era há alguns anos. Acho que esta época vai ser recordada durante muito tempo. A Série A e a Série B são muito competitivas e tudo vai ficar resolvido na última jornada. Acho que está ao nível dos melhores campeonatos do mundo e a prova disso mesmo é o facto de ter conseguido atraír grandes patrocinadores. Por outro lado, o país está também bem melhor, houve um grande crescimento económico.

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