Os erros de Paulo Bento

Ainda a convocatória para o Mundial.

À falta de Ronaldo, a alternativa não passa por arranjar alguém que o substitua. Antes passa por mudar o sistema e adequá-lo às características dos jogadores, de forma que o sistema, mais do que qualquer jogador, consiga prover a falta de Ronaldo.

É já um hábito fazerem-se críticas às escolhas do selecionador, seja ele quem for. Foi-o com António Oliveira, foi-o com Scolari (sobretudo por parte dos portistas, que nunca lhe perdoaram não ter convocado Vítor Baía), foi-o com Carlos Queiroz, porque não convocou João Moutinho, e é agora com Paulo Bento, por não ter convocado Adrien, Cédric, Antunes, Nelson Oliveira e Quaresma, para falar dos que, à partida, poderiam ser convocados, seja pela época que realizaram, seja porque não entravam na sua lista dos proscritos, como são os casos de Ricardo Carvalho e Danny.

Vejamos caso a caso, para sabermos se de facto alguns deles deviam ter sido convocados. Excluímos, por razões óbvias, os casos de Ricardo Carvalho e Danny (quem se acha estar acima da Seleção não merece estar na Seleção: ou, o que é mais, quem se acha mais do que os colegas não merece lugar na Seleção).

Antes de iniciarmos a análise, seja-nos permitido referir alguns importantes critérios que deveriam presidir à escolha dos eleitos: em primeiro lugar, o talento natural de cada jogador (entenda-se o talento natural como o talento acima da média). Quer isto dizer que, independentemente do jogador ser ou não titular na sua equipa, se tiver o talento natural, deve ser convocado. É, por exemplo, o caso de Nani. Para sustentar esta opinião, ilustramos com um exemplo: se fosse o caso que Ronaldo doravante fosse suplente do Real Madrid, por teimosia ou pelo facto de o treinador não gostar da sua personalidade, deveria Ronaldo não ser convocado? A resposta é automática: claro que deveria ser convocado. Qualquer pessoa racional diria que sim. Se acaso o exemplo não colher em virtude de achar-se que Ronaldo jamais iria para banco, vejamos por exemplo o caso de um outro jogador. Seja João Moutinho. Se este na época que vem for sentado no banco por Leonardo Jardim, não deverá ser selecionado? A resposta é óbvia: claro que deve ser convocado. Logo, o talento deve ser um dos critérios a ter em conta quando da escolha dos selecionados, mesmo que o jogador não seja titular na sua equipa (claro está que confirmado e reconhecido o seu talento).

Em segundo lugar, as lesões. Se um jogador é atreito a lesões, por muito talento natural que tenha, deve ser pensada a sua escolha. Se é um jogador que se lesiona a cada dois jogos, então não deve ser convocado, sob pena de passar o Mundial ou Europeu lesionado, com grave prejuízo para a Seleção. Em terceiro, contrariamente ao que alguns comentadores preconizam, o carácter do jogador. Quer dizer, se é propenso a desavenças e/ou se manifesta ser um jogador que não compreende o que é fazer parte de um grupo. Neste caso, independentemente do talento natural que tenha, o jogador não deve ser convocado (o critério substantivo que deve presidir à avaliação do carácter do jogador é o reconhecimento por parte da comunidade futebolística do seu mau carácter. Isto é, se é da opinião geral futebolística que de facto o jogador manifesta mau carácter.).

Expostos estes primeiros critérios, vejamos então os erros cometidos por Paulo Bento. Primeiramente, o erro de não ter convocado Antunes e consequentemente de ter convocado André Almeida. Este erro é acentuado pela lesão de Cristiano Ronaldo. Mesmo que Ronaldo possa jogar frente à Alemanha, não é de todo certo que realize os jogos seguintes. E mesmo que jogue nos restantes jogos, não é certo que possa completar os 90 minutos. De modo que, e em face das outras alternativas para a sua posição, a possibilidade de colocar Fábio Coentrão na posição de extremo-esquerdo, passando Antunes a ocupar a posição deixada, se nos parece uma possibilidade viável que daria maior profundidade ao corredor esquerdo em razão de ambos serem bastantes ofensivos e se complementarem bem. Além de que salvaguardar-se-ia igualmente a defesa, uma vez que ambos defenderiam. Com Coentrão na posição de Ronaldo e André Almeida na lateral esquerda, por muito esforçado que seja, a profundidade do corredor esquerdo não é a mesma.

Em segundo lugar, não ter convocado Adrien, pela mesma razão da primeira. Se Ronaldo não puder jogar, o poder de ataque da Seleção não será o mesmo, de modo que, a possibilidade de mudar de sistema tático se torna uma opção a ter em conta. Neste sentido, a inclusão de Adrien mostrar-se-nos-ia de grande utilidade. Num sistema de 4-4-2 em losango, jogando com William Carvalho a trinco, Veloso no interior esquerdo, Moutinho no centro, e Meireles no interior direito, Adrien apareceria como uma boa segunda opção, a par de Rubem Amorim e Rafa (além de que poderia fazer a posição de trinco neste sistema (em caso de lesão de William), deixando Miguel Veloso para interior esquerdo por causa de ser canhoto).

Em terceiro lugar, não ter convocado Cédric. Com Cédric e a possibilidade de se ter de mudar de sistema tático, Cédric garantiria maior poder ofensivo no sistema sobredito. Inclusive, poderia jogar como interior direito, sobretudo em fases de jogo em que fosse necessário centrar para a área. Algo que André Almeida não garante tão bem.

Em quarto lugar, não ter convocado Nelson Oliveira. Mais uma vez, em virtude do que possa ou não suceder com Ronaldo. Nelson Oliveira também pode jogar a extremo. É um jogador possante (quem não se lembra das suas arrancadas no Mundial de sub-20 pelo lado direito na final contra o Brasil?), tecnicamente dotado, e que faz golos (fez mais esta época do que Postiga). Por outro lado, no sistema de 4-4-2 losango seria um jogador que encaixaria muito bem a ponta de lança ao lado de um outro, como seja, por exemplo, Éder.

Por fim, poderemos questionar a não convocação de Quaresma, mas em face do que foi dito sobre os critérios acima, Quaresma era um jogador fora de questão. Mais a mais, com a possível necessidade de mudar de sistema tático, Quaresma não encaixaria nele. Nani, Vieirinha, e até mesmo Varela, facilmente poderiam adaptar-se ao losango, porque defendem, coisa que claramente Quaresma não faz. Para aqueles que afirmam que à falta de Ronaldo, Quaresma seria o substituo ideal, é um erro de raciocínio. Quaresma não é Ronaldo. E não será preciso explicar porquê.

À falta de Ronaldo, a alternativa não passa por arranjar alguém que o substitua. Antes passa por mudar o sistema e adequá-lo às características dos jogadores de forma que o sistema, mais do que qualquer jogador, consiga prover a falta de Ronaldo. É neste sentido que, um sistema em losango (que, por norma, é mais solidário) se ajustaria bem à ausência de Ronaldo. E é outrossim neste sentido que alguns dos erros de Paulo Bento foram cometidos. É possível dizermos que se Ronaldo puder jogar, então não será necessário mudar de sistema, e bem assim da necessidade de se ter convocado os jogadores aqui referidos. Mas também é possível dizer-se que se os jogadores aqui mencionados fossem convocados, o sistema normal de jogo de Portugal manter-se-ia, com a vantagem de as soluções táticas serem ainda maiores.