O que é a BTV?

Se é um canal de desporto, concorrente da Sportv, não poderá privilegiar o Benfica.

Tenho acompanhado com interesse o surgimento dos chamados canais desportivos de clubes. Cada um com o seu contexto, diferente do outro, com abordagens diferentes, mas acima de tudo a tentarem exultar e a promover os clubes que lhes dão origem. É bom aqui recordar que os canais de clube pertencem ao universo dos clubes em si mesmo e não das SAD e isso deveria fazer toda a diferença. Quer isto dizer que Sporting TV, BTV e Porto Canal deveriam ser independentes face ao posicionamento das direções dos clubes que representam mas acabam por ser, verdadeiramente, braços armados das direções, que veem ali um espaço privilegiado para comunicarem o que querem, quando querem, como querem, sem direito ao contraditório.
 
Por pertencerem ao universo dos clubes e não das SAD todos respondem perante a ERC - Entidade Reguladora de Comunicação, e não perante a LIGA, onde estão inscritos os clubes. A título de exemplo: o castigo aplicado ao Sporting pelo CD da LIGA, por o jornal do Sporting e Sporting TV promoverem conteúdos de "Liga da Verdade" na época passada, onde se colocou em causa a verdade desportiva e erros ao longo do campeonato, é absolutamente inconstitucional pois, como referi, a Sporting TV não está enquadrada na SAD, respondendo, antes, perante a ERC e só esta poderá atribuir punições e coimas.

Mas há outros factos que merecem pelo menos reflexão. A BTV será, porventura, o caso mais ambíguo. Desde que deixou os moldes de Benfica TV para captar novos produtos, como Ligas Inglesa e Italiana, e gerar receitas através da revenda desses direitos, que ficou a dúvida sobre o que é verdadeiramente este canal. Um canal de clube ou desportivo? Sendo um canal do Benfica fará sentido promover outras marcas - como a Premier League - em detrimento do clube que lhe dá vida? Mais grave, o canal transmite em exclusivo os jogos do clube numa liga onde as repetições servem de prova para aplicação de castigos. Mesmo que garanta independência a dúvida permanecerá sempre. Um bom exemplo: apenas houve uma repetição, e de costas, de um lance na área do Estoril que culminou com grande penalidade. Assumimos que a bola bateu no braço mas a única imagem disponibilizada não é totalmente conclusiva.

Outro exemplo, na Taça de Honra da temporada passada, em que a BTV venceu o concurso para transmissão da prova, face ao triunfo do Sporting diante do Benfica, optou por não transmitir a festa final, prestando um mau serviço à promoção da competição.

Se, por outro lado, admitirmos que a BTV é um canal de desporto, concorrente, por exemplo, da Sportv, não poderá privilegiar o Benfica, em termos de conteúdos e tom, em função da isenção a que está obrigada. Neste caso concreto, será inadmissível um amante de futebol, independentemente da cor clubística, ficar privado de ver, suponhamos, um Chelsea-City em direto, porque a BTV optou por transmitir os juniores do Benfica. Independentemente de ser público ou privado, generalista ou especializado, todos os operadores estão obrigados a um serviço público de informação e isso tem que ser levado em linha de conta nas grelhas. Um adepto deixar de poder assistir a um campeonato de referência internacional por opção editorial de um canal de clube que adquiriu os seus direitos, deixa mais mal servido o público no geral. E isso deveria ser tomado em linha de conta pela ERC.

O Porto Canal, por seu lado, é um pouco diferente. Propõe-se, mais do que ao FC Porto, promover a própria cidade do Porto e norte de Portugal. Sendo o FC Porto o clube mais representativo - e detentor a 100% do canal - parece óbvio que tenha mais tempo de antena face a Boavista, outro primodivisionário. A querer um modelo mais próximo da Sporting TV, é possível que o próprio FC Porto avance para um canal próprio e não generalista como agora acontece.