Ricardo Costa ou... a independência no futebol é uma falácia

Rui Santos responde a um leitor do Relvado, que quer saber a opinião do comentador sobre a atuaçã

Ricardo Costa, problema ou solução?

Sendo um defensor da verdade desportiva e da transparência no futebol, tal como eu, qual a sua opinião acerca de Ricardo Costa (ex-presidente do Conselho de Disciplina da Liga)? Apesar das conferências de imprensa mediáticas, considera que era alguém, que goste-se ou não, fazia cumprir os regulamentos disciplinares existentes (ainda que fracos, como ele próprio reconheceu) e foi afastado por "mexer" nos poderes instalados no nosso futebol, ou era alguém com sede de protagonismo e com uma agenda bem definida?

Cumprimentos!

Carlos Carvalho

 

A resposta de Rui Santos

Caro Carlos Carvalho,

O ex-presidente da Comissão Disciplinar da Liga, Ricardo Costa, constitui a prova mais recente de que a 'justiça desportiva' não deve emanar de escolhas marcadas pela bonita e sonante designação do 'movimento associativo', cuja dinâmica -- pela sua ineficácia -- é um embuste para enganar a opinião pública.

Ricardo Costa tentou fundamentar todas as suas decisões, de acordo com a interpretação que faz dos regulamentos.

Os regulamentos são, em muitas situações, omissos ou demasiado elásticos para merecerem diversas leituras. Por isso é que, no plano jurídico, há sempre múltiplas interpretações dos quadros normativos.

Creio que Ricardo Costa pretendeu, genericamente, tentar impor um novo quadro de moralização do futebol português, através de uma visão menos romântica e mais espartana dos regulamentos.

Não é possível, de acordo com o actual sistema de organização do futebol português, ao qual faltam claramente mecanismos de promoção e implementação do princípio da independência.

Por essa razão -- consciente de que não há soluções perfeitas -- venho defendendo a criação de um Tribunal Desportivo, cujos membros a serem escolhidos pelo 'aparelho judicial' e nunca pelo 'movimento associativo', que está obviamente 'clubitizado' ou contaminado pelo poder dos principais clubes.

Ricardo Costa foi amachucado como um folha de papel. Trucidado pela sistema do futebol. Será visto como uma espécie de 'D. Quixote vermelho' porque, conforme está organizado o futebol (em Portugal), tutelado por facções, a que se sente prejudicada fica sempre numa situação confortável de poder descredibilizar as decisões tomadas em seu alegado prejuízo. E isso acontece por vício sistémico, mas também porque a organização do futebol português não  consegue colocar-se acima dos interesses específicos e particulares dos clubes. Eles não deixam. É uma pescadinha de rabo na boca. A questão é, pois, muito simples: enquanto as bases do sistema de organização forem as mesmas, apenas teremos direito a um futebol de matriz clientelar. Sem independência e sem protecção da 'verdade desportiva'.

NOTA - Está concluído o Relatório Final e projecto de Diploma para criação de um Tribunal Arbitral do Desporto, com competências específicas para os litígios de natureza desportiva. Foram oito meses de trabalho da 'Comissão para a Justiça Desportiva', que fica agora à mercê do Governo emergente do próximo acto eleitoral e da Assembleia da República. Segundo o projecto, o TAD 'é uma entidade jurisdicional independente dos órgãos de administração pública do desporto e dos organismos que integram o sistema desportivo, dispondo de autonomia administrativa e financeira'. É um bom primeiro passo.

 

(Rui Santos escreve de acordo com a grafia do português pré-acordo ortográfico)

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