FC Porto treina-se na Liga portuguesa para jogar na 'Champions'

FC Porto correu riscos em matéria de calendarização. Ao não jogar no dia 29 de Agosto, como o fez

Em razão da sua participação da Supertaça Europeia, no Mónaco, o FC Porto acertou calendário na Marinha Grande e, ao vencer sem a mais pequena contestação, colocou-se na frente do campeonato.

Nada de novo. É habitual ver o FC Porto na frente. Três jogos, três vitórias, nove golos marcados e três sofridos. Dois pontos de avanço sobre Benfica e Sp. Braga e sete (!) sobre o Sporting.

É muito cedo para conclusões? Sem dúvida. Mas, pelas características da Liga portuguesa, é muito importante começar bem, ou seja, começar a ganhar.

O FC Porto encontrou algumas dificuldades nos dois primeiros jogos (em Guimarães e frente ao Gil Vicente), com uma arbitragem de Rui Silva muito polémica, mas venceu-os, e isso é a única coisa que conta quando se olha para a classificação geral.

A única derrota consentida pelo FC Porto foi exactamente no espaço internacional. Frente à melhor equipa do Mundo, o Barcelona. O FC Porto ambiciona sempre mais, até porque esteve à sua mercê um acontecimento verdadeiramente histórico que iria provocar ondas de choque à escala universal, mas -- sejamos claros -- realizou o jogo que estava ao seu alcance e perdeu com máxima naturalidade, perante uma grande equipa, um grande conceito (sobre futebol), uma grande ‘escola’.

O FC Porto jogou numa sexta-feira, no Mónaco, e o seu pedido para cumprir a jornada 3 a 6 de Agosto (na Marinha Grande, frente à U. Leiria) teve acolhimento. Os portistas venceram por 5-2, mas correram enorme risco, embora sem consequências de maior (se se confirmar que a lesão de Hulk é rapidamente recuperável), a avaliar pelo resultado e também pela exibição.

Por que razão dizemos que o FC Porto correu enorme risco ao marcar este jogo para a data de ontem? Porque o FC Porto sabia que, ao não jogar na segunda-feira, dia 29 de Agosto, aliás como o fez precisamente o Barcelona, iria atirar o encontro para o dia em que a Selecção Nacional folgava, no seu trajecto a caminho da fase final do Euro-2012, mas outras Selecções estariam em competição (não apenas na Europa), como eram os casos da Roménia (Sapunaru), Argentina (Otamendi), Colômbia (Guarín) e Brasil (Hulk), com o ‘Incrível’ a protagonizar uma situação rara, isto é, ser chamado a participar em dois jogos em apenas 24 horas, o que pode ter concorrido para ‘o estalo no joelho e uma dor no tornozelo’.

Apesar dos riscos, Vítor Pereira não teve dúvidas em entregar a titularidade a Maicon (não esteve bem) e Belluschi (é um bom valor), promovendo ainda os regressos de Álvaro Pereira, Fernando (notória falta de ritmo) e James (bela exibição!), que ainda não tinha realizado qualquer minuto oficial pelo FC Porto esta época e promovendo ainda a estreia de Defour (boas indicações).

Álvaro Pereira apresentou-se em bom nível, a defender e a atacar, acabando com as especulações em torno de um eventual incómodo por não ter sido possível concretizar-se a transferência para o Chelsea. O incómodo até pode existir desde que não se repercuta no rendimento.

A conjuntura não era boa, em face de um conjunto de variáveis que condicionam o plantel: jogadores recuperados para o plantel e para a titularidade, ausências e diferentes níveis de preparação.

O FC Porto superou tudo isso na Marinha Grande. Mesmo correndo um elevadíssimo risco, em termos de gestão do calendário.

A propósito e à atenção da Liga: os adiamentos dos jogos deveriam seguir a regra das 72 horas. Sempre que haja no calendário possibilidade de realização de jogos desde que se cumpram as 72 horas de recuperação, não deveria ser permitido adiar os encontros para outras datas. Isso provoca grandes perturbações à competição e desvirtua o sorteio, com consequências ao nível da verdade desportiva.

Em suma: o FC Porto sabe que tem recursos de sobra para a competição nacional, assumindo que pode correr alguns riscos. Porque tenta escolher jogadores competitivos (com carácter competitivo) e porque sabe que a competição doméstica é, em média, fraca.

Por outras palavras, o FC Porto treina-se em Portugal para jogar na Europa, mais concretamente na ‘Champions’. Noutra Liga (mais forte), não correria o risco de adiar o jogo com a U. Leiria para esta terça-feira nem teria colocado Hulk a jogar. E haveria outra ponderação, provavelmente, sobre o ‘timing’ de utilização de Fernando e Álvaro Pereira.

Só um FC Porto suficientemente forte pode dar-se ao luxo de protagonizar estes 'devaneios'...

É evidente que o FC Porto fez estas opções a pensar, basicamente, na partida da próxima terça-feira (dia 13) com o Shakhthar, na estreia da presente edição da Liga dos Campeões. Decidiu jogar com a U. Leiria a 6 de Setembro e com o V. Setúbal a 9 (próxima sexta-feira), para poder preparar a partida com os ucranianos em 4 dias. Isso revela uma opção óbvia e legítima.

Na verdade, o FC Porto ‘está a mais’ na Liga portuguesa e assume a sua dimensão europeia. Veremos, a este nível, com que resultados.

(Rui Santos escreve de acordo com a grafia do português pré-acordo ortográfico)