... E, no Benfica, ninguém se demite?

 

O Benfica apostou na tese do arquivamento do ‘caso Luisão’. Foi acreditar na Virgem

Em 11 de Agosto, Luisão agrediu o árbitro do encontro particular entre o Fortuna Dusseldorf e o Benfica, que serviria para apresentar a equipa alemã aos seus adeptos e associados.

Desse facto o árbitro Christian Fischer deu conta à Federação alemã que reportou o incidente à sua congénere portuguesa.

No momento em que ocorreu a situação desencadeada por Luisão (e por mais ninguém), houve uma primeira reacção, absolutamente imprópria, de Jorge Jesus e de um conjunto de colegas do ‘capitão’ dos ‘encarnados’. As imagens de dois jogadores que, curiosamente, já não se encontram no Benfica, Javi Garcia e Witsel, acolitados por Jesus, nada cristão nestas matérias, vão perdurar na memória de todos.

Esta primeira reacção deveria ter sido ‘contrariada’, imediatamente, pelos dirigentes do Benfica.

Luís Filipe Vieira estava ausente e foi António Carraça quem assumiu as ‘despesas’ do assunto. Mal. Terrivelmente mal. E, a partir daqui, a situação ficou mais difícil para o presidente Luís Filipe Vieira, que deveria ter tomado uma posição firme, mesmo que colocasse em causa a reacção ‘a quente’ dos assalariados do Benfica. Nestas coisas, ou se age ou não se age. Não se agindo, corre-se o risco de se achar ultrapassado pelos acontecimentos. Foi o que aconteceu.

Acontece, porém, que -- dizem-nos algumas situações que ocorreram nos últimos tempos no futebol dos ‘encarnados’ ... -- o presidente do Benfica está rodeado por pessoas que também não gostam de assumir as responsabilidades, e LFV apenas conseguiu reclamar a ajuda de Fernando Gomes neste processo, o melhor que poderia ter acontecido ao presidente da FPF, a braços até então com o estigma de ser um dos ‘veículos de poder’ de Pinto da Costa nas estruturas do futebol português.

Com isto, Fernando Gomes consegue ‘anular’, até certo ponto, a vontade de Vieira em denunciar as razões pelas quais o sistema foi construído para ‘amparar’ a supremacia desportiva do FC Porto nas últimas épocas. Não é, por acaso que, nas imediações do quartel-general portista, há quem deseje (e apoie) a reeleição de Vieira como presidente do Benfica e alguns sectores já vêem nesta ‘generosidade’ de Gomes -- em ir em socorro dos ‘encarnados’ -- uma forma de apoio à recandidatura de alguém que não consegue travar a fase de consolidação da hegemonia azul-e-branca.

Em condições normais, António Carraça, que era o dirigente ‘mais graduado’ em Dusseldorf, deveria colocar o seu lugar à disposição ou ser demitido. Era o mínimo que este ‘caso’ deveria desencadear. Mas a ‘cadeia de solidariedade’ em redor de Luisão foi de tal forma densa que não parece haver espaço para uma atitude digna. Aliás, este é cada vez mais o problema de Portugal e dos portugueses -- e o País é apenas o espelho da impunidade que grassa no País.

O Benfica acredita, agora, pelo menos em termos de reacção pública, que a ausência de Luisão em 11 jogos, até Novembro, não crie grandes mossas na equipa. Pode correr bem, mas tem tudo para correr mal. É verdade que os adversários dos ‘encarnados’, na competição nacional e internacional, exceptuando o Barcelona, não são papões, mas é bom lembrar que, também sem Luisão, o Benfica na época passada perdeu pontos (2+2) nas suas deslocações a Barcelos e Coimbra, o que pode ser um sinal das dificuldades acrescidas quando o ‘capitão’ fica de fora...

Uma coisa é indiscutível: em relação à época passada, o Benfica está mais fraco. Jogar sem Javi Garcia, Witsel e agora Luisão parece de mais para uma equipa que aspira conquistar o título de campeão nacional e ter uma presença condigna na Liga dos Campeões.

Veja-se o descalabro: na sua programação de época, em termos de tentar um bom equilíbrio no plantel, o Benfica apostou em Ola John para uma posição amplamente preenchida. Pensou-se durante muito tempo que os ‘encarnados’ estariam a preparar a venda de Gaitán, mas nem isso aconteceu. Conclusão: o Benfica busca dentro do plantel soluções para as saídas do espanhol e do belga e não foi capaz de criar alternativas para posições menos apetrechadas, como é claramente o caso de todas as posições do sector defensivo.

Repito a ideia: o Benfica concorreu imenso para se expor demasiado, não apenas às vicissitudes marcadas pelos caprichos do mercado, mas também às circunstâncias próprias de quem compete no espaço nacional e internacional. É preciso contar com castigos e lesões. E a sensação que se colhe é que o Benfica apostou na sorte e na sua (presumida) inexpugnabilidade.

A extensão dos efeitos causados pelo castigo a Luisão vai observar-se até Novembro.

O ‘capitão’ do Benfica prejudicou, com aquele seu gesto irreflectido, prejudicou muito a imagem e os interesses do clube da Luz, mas entre os ‘encarnados’ Luisão continua a ser tratado como ‘herói’. Estou aliás convicto de que a cega defesa de Luisão, no Benfica, se deveu ao facto de haver consciência de que, com todo o respeito por Jardel e Miguel Vítor, a capacidade de resposta seria muito menor. Mas essa é também uma responsabilidade dos dirigentes ‘encarnados’ que mostraram nula capacidade de prever o que era quase certo que iria acontecer...

Ficam, pois, entregues à sua sorte.

Nota - Escrevo, propositadamente, este texto antes do jogo desta noite. Uma vitória na Escócia não invalida nada daquilo que penso sobre esta matéria.

(Rui Santos escreve de acordo com a grafia do português pré-acordo ortográfico)

Acompanhe os artigos do Relvado no Facebook e no Twitter.