Pontapé de saída

Aqui estou pronto para entrar no Relvado. Para jogar com e sem bola e para dar efeito e força às

Aqui estou pronto para entrar no Relvado. Para jogar com e sem bola e
para dar efeito e força às palavras. Com a determinação de um
‘carregador de piano’ ou com a subtileza de um jongleur. Sem
ideias pré-concebidas. Para entrar na equipa de todos vós que será --
respeitando as diferenças -- a equipa de todos nós. Com a certeza de que
a paixão da escrita não se confundirá com paixão clubística. E é nesse
confronto por uma dialéctica limpa e nunca ‘à margem das leis’ que
acharemos uma forma de comunicar e interagir. O futebol é um espectáculo
maravilhoso mas para que ele assuma a sua dimensão extraordinária é
preciso combater todos os esquemas de adulteração dos resultados. Aqui
se defenderá o jogo. A sua beleza e interpretação. Aqui se falará dos
protagonistas. Dos jogadores, os grandes artífices da bola. E dos
treinadores, esses ‘seres raros’ que têm de combinar a carpintaria das
tácticas com a arquitectura dos discursos. 

Aqui se
fará a denúncia, se for caso disso. Agora, como há trinta anos, em nome
do aparecimento de uma nova geração de dirigentes desportivos. Com a
responsabilidade de quem entra em campo sempre com o pensamento na
vitória. Porque o futebol só sairá prestigiado se houver quem não se
deixe contaminar ou entusiasmar pelo jogo subterrâneo.

Os jogadores evoluíram. Os treinadores, também. Os dirigentes vivem noutra dimensão. Errada, quase sempre.

Partilho
convosco o privilégio de poder actuar no Relvado com as cicatrizes
próprias de quem pisou os pelados. Da esferográfica para o iPad. Da bola
de cautchú às jabulanis da modernidade. Olhar para o futuro sem nunca desprezar os caboucos do passado.

 

Madrid, 1980. Final da Taça dos Campeões Europeus. No relvado: Nottingham Forest e Hamburgo. Os alemães, que tinham ‘despachado’ o Real Madrid de Pirri, Camacho, Del Bosque, Stielike, Santillana e Cunnigham, de forma impiedosa, nas meias-finais, brilhavam à data com quatro jogadores cruciais, combinando técnica e força: o lateral direito Kaltz, que corria 100 metros (sem barreiras) com a mesma facilidade de quem tem de desenrolar uma passadeira, no mesmo espaço, sem perda de velocidade; o médio Magath, com um pé esquerdo de veludo; o terrible Kevin Keegan, com quem tivera o prazer de conversar no treino de véspera da final; e o ‘tanque’ Hrubesch, o ponta-de-lança ‘quebra-ossos’ que a história mais recente do futebol germânico foi substituindo pela... troca de cinzel, com avançados menos ‘peitudos’.

Entre os ingleses, liderados pelo ‘manager’ Brian Clough, que os fãs do Nottingham e do Derby County jamais esquecerão, brilhava o guarda-redes Peter Shilton.

O Nottingham venceu (1-0, golo de Robertson) num jogo superiormente dirigido pelo português António Garrido, um árbitro que chegou ao ‘top’ da arbitragem internacional com mérito indiscutível.

Mil novecentos e oitenta. Do ‘Santiago Bernabéu’ para a nossa realidade. Jesualdo Ferreira era o seleccionador de juniores e levara a respectiva Selecção à fase final do Europeu, na então RDA. Com Dito, João Pinto, Quinito, Jaime Magalhães, Carlos Xavier, Mário Jorge, Pacheco, entre outros.

Estava a aparecer Paulo Futre, que marcaria presença, dois anos mais tarde, no seu primeiro Europeu de Juniores, na Finlândia. Já sob a orientação de José Augusto e ao lado de Venâncio, Morato e Carlos Brito. 

Era um craque, no final da ‘era-Chalana’. In loco, vi-o passar ao lado do Europeu, em Leninegrado (hoje, São Petersburgo), no ano de 1984. Numa equipa que muito prometia com Samuel, Carvalhal, Fernando Mendes, Caetano e Litos.

Paulo Futre -- um dos mais talentosos jogadores do futebol português, a querer afirmar-se agora como ‘homem-forte’ do Sporting.

A bola continua a rolar.