Ricardo Carvalho e a mensagem vital: nesta FPF, o seleccionador será sempre uma vítima

O episódio do qual Ricardo Carvalho e Paulo Bento foram os principais protagonistas demonstrou qu

 

Ricardo Carvalho, se se sentia injustiçado relativamente à forma como vinha sendo tratado na Selecção Nacional, só tinha de fazer uma coisa: acatar a decisão do seleccionador e, após o jogo com o Chipre, em Nicósia, oficializar a sua posição e dizer que, nas actuais circunstâncias, não contassem mais com ele para representar a equipa das quinas, apresentando as justificações que entendesse apresentar.

Ricardo Carvalho tem pautado a sua carreira por uma grande discrição e até se impor até ao mais alto nível lutou bastante para alcançar o estatuto actual. Apesar disso, por nunca ter procurado protagonismos fáceis, fica aparentemente mais difícil de compreender a sua posição tão desconchavada.

Ricardo Carvalho é ‘um introvertido bem disposto’ e, ao contrário do que se possa pensar, é um homem com personalidade. Sempre pensou pela sua cabeça e nunca foi de alinhar em correntes fáceis e dominantes. Seguiu sempre o seu instinto e, ao longo da carreira, teve duas situações públicas em que se traiu a si próprio. Primeiro, em 2005, ao serviço do Chelsea, quando afirmou não entender a opção de Mourinho em colocá-lo no banco de suplentes -- o que lhe valeu uma resposta dura do treinador que melhor o conhece (‘temos de testar o seu QI’); agora, quando decidiu abandonar o estágio da Selecção Nacional, sem comunicar essa decisão a quem de direito.

A FPF, há muito, que é um vazio quase absoluto em termos de dirigentes. Quase todos muito fracos, quase todos à míngua do ‘nacional-porreirismo’ e do ‘deixa andar’ muito típico das lides federativas, desde os tempos da Praça da Alegria. A FPF nunca soube impor o exemplo, raramente conseguiu ultrapassar as fases mais agudas de conflito e deixar uma imagem positiva de autoridade.

Com uma autoridade indiscutível, provavelmente nenhum jogador se sentiria à vontade para protagonizar um episódio como aquele que foi observado em Óbidos.

Nem sequer se trata da ausência (física) do presidente da FPF. Gilberto Madail há muito que está ausente da solução da maioria dos problemas do futebol português. Poderia existir, em alternativa, um vice-presidente ‘para o futebol’ que compensasse essas ausências. Mas, quando Madail não pode, é Amândio de Carvalho quem assume a ‘liderança’. Que ‘liderança’? Nenhuma, está bom de ver. E é assim, na Federação das viagens e dos estágios, desde 1986 (Saltillo). Este pormaior diz bem do ‘estado de coisas’ na FPF -- e, também por isso, é preciso mudar. Vêm aí eleições, e é tempo de impor uma presidência que entenda quais são as prioridades e entenda um princípio muito elementar: a FPF necessita de mudar a imagem -- de uma organização decrépita, que sobrevive à míngua de interesses muito particulares e de mui velhos esquemas.

 Ricardo Carvalho, com a sua atitude, também demonstrou como é frágil, afinal, o bastião do seleccionador nacional, assente nos mesmos vícios e na mesma ‘entourage’ de outrora. Supostamente, vivia-se agora o tempo de uma liderança forte e indiscutível. O tempo da coesão e de uma nova linguagem. Da unidade e da fraternidade. Da sã e apertada camaradagem entre treinador e jogadores. Afinal, ao primeiro abanão e mesmo sob uma dinâmica vencedora, a mesma sensação de impotência e ineficácia. É esta a FPF que temos: os seleccionadores serão sempre vulneráveis enquanto não mudar o essencial. E o essencial é a FPF (por dentro) e a mentalidade que não muda.

Repito: nada do que aconteceu iliba Ricardo Carvalho. Mas o defesa central do Real Madrid obriga-nos a pensar que nem tudo está bem, mesmo quando se quer decretar que está...

PS - Sobre as consequências e ligações ao Real Madrid voltarei ao assunto noutro artigo.