O senhor Idalécio exibiu as varizes do futebol português

 

Fernando Idalécio Martins, o árbitro do Beira-Mar-Sporting, encarregado de armazém,

 

De repente, o senhor Idalécio ganhou o direito de figurar entre as personalidades mais ilustres do País, a par da ‘cromalhada’ dos reality shows deste País e do mui querido e inefável Paulinho (Futre, já se vê).

 

O senhor Idalécio, que não deve ter ido à tropa e, se foi, não deve ter guardado grandes saudades, mandou às malvas os ‘amarelos’ da farda do tenente-coronel e apresentou-se em Aveiro sem auriculares, nem ginásio, nem motorista. Apenas de apito na boca. 

 

O senhor Idalécio, normalmente encarregado de dirigir jogos distritais e encarregado de armazém, tinha apenas como objectivo demonstrar que era capaz. Que era capaz de não cometer erros grosseiros e, com isso, provar que o exercício de dirigir um jogo de futebol não é um bicho de sete cabeças.

 

Conseguiu as duas coisas e ainda conseguiu deixar uma mensagem aos ‘profissionalões’ da arbitragem, que não têm conseguido escapar à tentação de se tornarem ‘vedetas’ do futebol. Não é preciso. Ninguém quer isso. O futebol apenas necessita de boas decisões, independentemente da cor dos clubes e da força dos emblemas.

 

A FPF ficou ferida com este episódio. E em silêncio. Comprometedor. O seu presidente ‘aparece’ nos momentos bons; ‘desaparece’ nos momentos maus. A FPF precisa de um líder. Mas será que os clubes querem que a FPF tenha um líder?!...

 

O presidente da Comissão de Arbitragem da FPF, Carlos Esteves, descartou qualquer tipo de responsabilidade. A sua obrigação era tentar ajudar a resolver um problema que a Liga -- um órgão da FPF -- a certa altura não foi capaz de solucionar. E isso não aconteceu porque são conhecidas as divergências entre Carlos Esteves e Vítor Pereira. Mais uma situação, entre muitas, em que as relações pessoais condicionam as relações institucionais.

 

A Liga também sai muito fragilizada neste processo. Fernando Gomes escreveu uma carta aos presidentes dos clubes pedindo-lhes contenção verbal e lembrando-lhes que acordaram fazê-lo, em defesa da modalidade. Faltou a Fernando Gomes protagonizar, publicamente, uma tomada de posição mais firme. 

 

Não sei se o senhor Idalécio tem a noção exacta das varizes do futebol português. A verdade é que as exibiu sem a mais pequena hesitação e todos ficaram cientes da dimensão da patologia.

 

O senhor Idalécio estabeleceu o choque brutal do amadorismo com o profissionalismo. O ‘futebol dos milhões’ tem destas misérias...

 

Vítor Pereira nunca pensou ficar desarmado como ficou. Nomeou João Ferreira sem meditar muito bem nas consequências desse acto. Pensou que um oficial do exército está sempre pronto para qualquer batalha. E sobretudo pronto para a guerra. Esqueceu-se, porém, que as ‘guerras urbanas’ não são despiciendas e que há mais gente disposta a sentar-se no ‘cadeirão’ das nomeações. Ficou sem condições para exercer o cargo, mas isso é o que menos importa. Mesmo sozinho -- ninguém, nem a Liga, foi em seu socorro... -- achará sempre que a culpa é dos outros...

 

O senhor Idalécio pode ter eventualmente muitos defeitos, mas mostrou -- a quem ainda não tinha reparado -- que o futebol português é pobre e os seus protagonistas são indiferentes ao ridículo.


(Rui Santos escreve de acordo com a grafia do português pré-acordo ortográfico)