"Aquilo em França é como se tivesse havido um Benfica-FC Porto"

Entrevista a quem conhece muito bem o ambiente entre portugueses e franceses, em França.

No dia seguinte à final do Europeu 2016, e ainda no meio dos festejos do título de Portugal em França, o Relvado cruzou-se com um adepto português que conhece bem o ambiente em França por estes dias. Ex-desportista a tempo parcial (foi jogador de futebol de salão), trabalhou em França durante 27 anos, em diversas empresas e também como independente. Está cá há uma década mas ainda se lembra bem da época prolongada em território gaulês. Como serão agora as conversas, no trabalho e nas ruas, entre franceses e portugueses? Conversemos com Adão da Silva por causa disso.

Relvado (R) - Esteve em França durante quanto tempo?
Adão da Silva (AS) - Ora, fui em 1979, voltei em 2006... São 27 anos.

R - Porquê tanto tempo?
AS - Trabalho, só por causa disso. Nós (eu e a minha esposa) só estivemos lá porque havia trabalho.

R - Não gostavam dos franceses?
AS - Em geral os franceses não gostam muito de nós. E nós, portugueses, também não gostamos muito deles.

R - Então como estará o ambiente entre portugueses e franceses por estes dias, por causa da derrota da França contra Portugal na final do Europeu?
AS - Aquilo está exatamente como se tivesse havido um Benfica-FC Porto. Se o Benfica ganha, os portistas vão trabalhar no dia seguinte com uma cara... Todos trombudos. Ou ao contrário, claro. E quem diz um Benfica-FC Porto, diz FC Porto-Sporting ou Sporting-Benfica. Lá é igual. Os franceses vão andar um bocado deprimidos durante uma semana. Esta derrota custa um bocado a engolir. Vão andar a tentar arranjar desculpas, "porque fomos roubados, porque Portugal teve sorte, porque se não tivesse sido o árbitro teríamos ganhado, porque se não fosse aquela bola ao poste teríamos ficado com a taça...". Por exemplo, aquela mão do Éder que o árbitro marcou ao contrário; se tivesse sido golo nesse livre, teria sido um escândalo!

R - E os portugueses, no meio desses diálogos?
AS - Estão a dar música. Os portugueses, por estes dias, vão andar com mais dentes do que o costume, enquanto os franceses se encolhem. Mesmo que esteja teso, qualquer português faz a festa agora! Mesmo a classe mais pobre está a fazer a festa.

R - Há uma rivalidade especial com os franceses, portanto.
AS - Nós, no geral claro, não gostávamos que eles ganhassem a outras equipas. E neste caso ficou a ideia de que o Platini tinha tudo preparado para que a França fosse campeã europeia. E isso toca a gente, a gente sente. Lembro-me que no Mundial 1998 aquilo foi um escândalo. Achámos que estava tudo preparado. Ninguém lá gostou daquele Mundial ganho pela França. Ninguém... Quer dizer, os franceses gostaram.

R - Há motivo para essa falta de harmonia com a França?
AS - Primeiro, é histórico. Já vem de há muito tempo. Depois, creio que a comunicação social também provoca isto. Até cria alguma maldade em alguns. Aquelas ideias que ainda neste Europeu lançaram, de que os portugueses não jogam nada, que são nojentos... Isso pica as pessoas, provoca ainda mais.

R - Pica em si também?
AS - Quando acabou a meia-final com o País de Gales, eu disse: "Agora quero que venham os francescos!"

R - Está respondido.
AS - E imagino como os francescos andam agora. Todos encolhidos, metem-se nos cafés, nos bistrôs de lá, bebem umas cervejas para esquecer as mágoas, falam só com amigos mais próximos a lamentarem-se. Nada mais do que isso. Mas, como já disse, isso dura uma semana e depois passa.

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