E os Sub-20?

A prestação de Portugal no Mundial de Sub-20 mostrou que existe um futuro para além da geração de Cr

A prestação de Portugal no Mundial de Sub-20 foi absolutamente notável. Mostrámos ao mundo, e a nós próprios, que existe um futuro para além da geração de Cristiano Ronaldo e Nani. A imagem de uma seleção combativa, bem preparada e inteligente na forma como foi encarando os jogos, conquistou-me. Sem tomahawks, sem cruzamentos de letra, sem fintas de encher o olho. Honesta e sem pretensiosismos. Uma seleção anti-vedeta, por assim dizer.

Não foi amor à primeira vista. Nem poderia ser. A fase de grupos levantou-me, desde logo, algumas dúvidas. Fomos cumprindo com serviços mínimos. O jogo dos oitavos-de-final, contra a “colossal” Guatemala, foi um bocejo e a espaços, intolerável de se ver. O ponto de viragem terá sido o jogo contra a favorita Argentina. A equipa nunca cedeu, mostrando garra e competência numa estratégia que viria a ser a sua imagem de marca. Controlar primeiro o adversário, minar o seu plano de jogo e depois começar a crescer na partida. A reviravolta incrível nos penaltis, momento de sublime superação de Mika, foi o despontar na prova, e o reclamar para si a atenção do mundo do futebol. Nas meias-finais, os irredutíveis gauleses foram dominados categoricamente. Da final amarga contra o Brasil, fica o sentimento claro de que merecíamos mais. Faltou-nos a “famosa” sorte do jogo dirão alguns. Verdade seja dita, comprometemos defensivamente, algo que ainda não tinha sucedido na caminhada até à final. Nada que manche, uma prestação em crescendo e a todos os níveis briosa.

A forma heroica como os jogadores se bateram até ao último minuto do prolongamento, foi para mim, motivo de enorme orgulho. Um exemplo de abnegação e empenho. Numa madrugada de emoções fortes, fica na retina uma exibição soberba (mais uma), do capitão Nuno Reis. Um esteio na defesa. Um nome a reter para o futuro. Não teria lugar, de caras, numa equipa do nosso campeonato? O seu empréstimo, de modo a poder jogar, a um clube do sofrível campeonato Belga, tem tanto de chocante como de vergonhoso. E que dizer de Nelson Oliveira? Este promissor ponta de lança, espécie rara no futebol luso, foi de todos, o que mais me impressionou durante a competição. Coube-lhe o papel ingrato de jogar sozinho na frente. Não se deixou intimidar, aterrorizando as defesas contrárias de forma impiedosa. Inteligente a segurar a bola, diabólico nas suas arrancadas e oportunista a rematar. Um diamante em bruto que deixou os principais clubes da Europa em alvoroço. O “Zlatan Ibrahimovic de Portugal”, como foi apelidado pelos simpáticos colombianos. Merece toda a sorte do mundo. Merece, sobretudo, que o deixem jogar para que evolua sem sobressaltos.

Terminada que está a competição, coloca-se agora uma questão óbvia. O que irá acontecer a estes atletas? Fica a ideia que regressam a um futebol que não os quer. Que retornam para um vazio competitivo. Condenados ao banco, tapados por “talento” estrangeiro, vendidos ao desbarato ou simplesmente emprestados, todos terão que ir em busca da sua sobrevivência enquanto profissionais. Triste fado este. Para alguns, a aventura no estrangeiro chegará mais cedo do que desejariam. A aposta feita na formação, resulta em desinvestimento na hora de passarem a seniores. Um contrassenso ridículo. Uma gestão ruinosa de recursos humanos. Um desperdício.

Serve este desempenho, para dar uma chapada de luva branca aos dirigentes do nosso futebol? O “grito do Ipiranga” para uma geração que se sente injustiçada... O simples facto de não ter havido uma cobertura televisiva no inicio da prova, diz muito da mentalidade reinante. “Não dá dinheiro. Os jogos passam tarde e não devem ir longe.” Pois bem, enganaram-se. Ao contrário da seleção sénior que muitas vezes demonstra tiques de vedetismo insuportáveis, estes jovens conquistaram a pulso, a medalha de prata.

Penso que devemos repensar a nossa relação com as seleções de base. Foram eles que nos fizeram sonhar durante os anos em que a seleção sénior desiludia. Habituaram-nos a grandes feitos e nós retribuímos com devoção e interesse. O recente afastamento por parte dos adeptos, resulta da ausência nas principais provas ou fracos desempenhos após qualificação para as mesmas. A falta de destaque, dada pelos media, também não tem ajudado. Este Mundial deve ser encarado como uma oportunidade para reatar esta relação. Como simpatizantes, podemos e devemos fazer melhor. Esta equipa teve o mérito de despertar em cada um de nós o orgulho pátrio, numa altura em que este anda ferido.

Honra seja feita, a Ilídio Vale e aos Sub-20.

(Pedro Mota é um adepto atento e especialista no fenómeno futebolístico)