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António Pacheco, ex-jogador dos dois rivais lisboetas, atribui as culpas da histórica goleada às opç

O treinador Carlos Queiroz foi o principal responsável pela histórica derrota por 6-3 sofrida pelo Sporting no dérbi com o Benfica, em 1994, afirmou o antigo futebolista Pacheco, que tinha trocado a Luz por Alvalade no ano anterior.

Pacheco recordou, numa entrevista à Agência Lusa, esse jogo, no qual foi um dos protagonistas, quando Carlos Queiroz, então treinador do Sporting, decidiu retirar ao intervalo o lateral esquerdo Paulo Torres e lançar o antigo jogador do Benfica para o seu lugar, com o marcador em 3-2 para os encarnados.

Um hat-trick de João Pinto (30, 37 e 44 minutos) tinha permitido às águias irem para o descanso a vencer, depois de recuperarem duas vezes de um golo de desvantagem, após os tentos de Cadete (8) e Luís Figo (35) para o Sporting.

No entanto, a substituição de Torres por Pacheco abriria caminho para os restantes três golos do Benfica, apontados por Isaías (48 e 57) e Hélder (74), antes de Balakov (80) fazer o 6-3 final, de grande penalidade.

 

Entrada de Queiroz “foi nefasta para o Sporting"

“O Sporting não jogou nessa noite e o Benfica ganhou 6-3 ao professor Carlos Queiroz”, afirmou Pacheco, acrescentando que teve “um gravíssimo problema” com o técnico em Alvalade.

Disse que, quando trocou a Luz por Alvalade, juntamente com Paulo Sousa, no “verão quente de 93”, o Sporting “tinha um plantel recheado de grandes jogadores, uma grande equipa e um treinador fantástico, o senhor Bobby Robson”.

Pacheco lamentou que os dirigentes leoninos da altura, durante a presidência de Sousa Cintra, não tenham sido “condescendentes” com Robson, “ao ponto de lhe darem a oportunidade que merecia, pelo seu inegável valor e pela forma como olhava para a equipa”.

“E o Sporting, aí, perdeu uma grande oportunidade de engrandecer ainda mais a camisola. E, com a mudança de treinador, foi realmente um retrocesso”, acrescentou, referindo-se à entrada de Carlos Queiroz.

O antigo jogador garantiu que um resultado como o 6-3 “é sempre duro de digerir”, mas fez questão de aliviar a responsabilidade dos jogadores e do clube, afirmando que “há coisas que não se conseguem separar, mas, se isso fosse possível, diria que o Sporting não jogou nessa noite e o Benfica ganhou 6-3 ao professor Carlos Queiroz”.

“Quero retirar os jogadores e o clube desta derrota, porque ela devia ter sido, e nunca foi, assumida por aquele que era o maior responsável”, acrescentou.

Pacheco disse que “quando as coisas não são bem definidas e preparadas, as possibilidades de sucesso são sempre mais diminutas” e a entrada de Queiroz “foi nefasta para o Sporting naquele ano”.

 

Saída do Benfica "não teve nada a ver com questões monetárias"

O antigo jogador afirmou ainda que a sua saída para o Sporting em 1993, a dois anos de terminar o contrato, se ficou a dever à perda de identidade, mística e orgulho do clube da Luz.

Pacheco garantiu à Lusa que a sua saída não foi motivada por questões financeiras e que, quando comunicou aos dirigentes do Benfica e ao treinador Toni que iria sair, ainda não tinha recebido qualquer proposta para representar o Sporting ou qualquer outro clube.

“Não teve nada a ver com questões monetárias, mas sim com questões pessoais. De uma maneira geral, não estava a gostar do caminho que o Benfica estava a tomar, porque não foi assim que eu fui educado a ser jogador do Benfica”, afirmou Pacheco.

O antigo extremo recordou colegas de equipa célebres, como Bento, Shéu ou Veloso, entre outros, que lhe “ensinaram que para ser jogador do Benfica era preciso ter um determinado comportamento, uma determinada atitude e uma determinada irreverência”.

Admitiu que, com a entrada de outros dirigentes e treinadores, até poderia haver modificações, “mas havia uma coisa que nunca poderia mudar, principalmente pela grandeza que o clube tem, que é a sua própria mística, orgulho e identidade”.

 

"Negação absoluta" dos valores do Benfica

Pacheco acrescentou que “o caminho que as coisas estavam a levar era de uma negação absoluta daquilo que considerava serem os grandes valores do Benfica” e, por isso, comunicou a 9 de junho de 1993, a Alberto Silveira, chefe de departamento de futebol do Benfica na altura, e ao treinador Toni que no dia seguinte faria o seu último jogo pelo Benfica, apesar de ter mais dois anos de contrato.

Pacheco contou que nessa conversa explicou "as razões por que queria sair, o aspeto legal para poder sair e provocar uma rescisão unilateral” e garantiu que a questão financeira só entrou aí.

“Não tinha nada a ver com o facto de ganhar pouco, muito, ter ou não ter ordenados em atraso, aquilo foi apenas a questão legal para sair”, justificou, assegurando que tomou a decisão “sem saber para onde ia” e sem ter havido contactos anteriores com qualquer clube.

Pacheco disse que, “infelizmente para o Benfica”, os anos que se seguiram lhe deram razão, “porque foram maus” para o clube, mas também para a sua carreira, que “não foi tão boa como tinha sido até aí”.

Pacheco falou à Lusa antes do dérbi que sábado vai opor o Benfica ao Sporting, da 11.ª jornada da Liga, e garantiu que esses jogos recordam sempre os que viveu como jogador.

Mas destacou as finais da Taça dos Campeões Europeus que perdeu com a camisola do Benfica para o PSV Eindhoven e para o AC Milan como os jogos que piores memórias lhe trazem.

“Esses foram dos maiores desgostos futebolísticos da minha carreira. O modelo era mais difícil do que o atual da Liga dos Campeões. Na altura, quem vacilava ficava pelo caminho. Disputei duas finais da Taça dos Campeões Europeus, perdi as duas por um golo, uma de penaltis e outra por 1-0, são dois desgostos enormes”, reconheceu.

Sporting, plantel 1993/94