De um Sporting temido

É facto: incomoda este Sporting, cria desconforto ver um Sporting avasslador.

De há umas semanas a esta parte, os comentadores de futebol e colunistas têm acentuado a ideia de que o Sporting tem um plantel curto (o que em parte é verdade), igualmente que o Sporting ainda não foi posto à prova contra equipas grandes (o que é mentira e sintoma da desonestidade intelectual de quem produz esses comentários – o Sporting já leva quatro dérbis), e ainda a ideia de que o Sporting não é candidato ao título, sendo antes os outros dois adversários (o que, mais uma vez, demonstra a desonestidade intelectual, na medida em que há umas semanas esses mesmos apontavam o Sporting como candidato ao título).

Diríamos que estas afirmações são o resultado do desconforto de ver o Sporting a praticar um futebol de qualidade como há muito não se via, e ainda o facto de estar em primeiro lugar. Há uns dias, no jornal Record, João Querido Manha tentava dar o toque final nessa tentativa de menosprezar este Sporting com estas irónicas e despropositadas palavras: “A realidade é esta: quatro jogos, dois empates, duas derrotas e a conclusão de que falta um bocadinho, um pouco maior do que um iogurte, para ombrear com os outros dois grandes.”

Qualquer sportinguista que se preze prefere que o Sporting perca os quatro dérbis, se apesar disso e com isso ganhar o campeonato. Cremos que não há dúvidas a este respeito, mesmo que os dérbis se revistam de uma importância simbólica (aqueles que não preferem o campeonato a quatro derrotas nos dérbis, podemos dizer, não são seguramente sportinguistas. O mesmo poderemos dizer dos rivais. O campeonato, ou melhor, os títulos sobrepõem-se sempre a qualquer rivalidade/dérbi, dado que é esse o objetivo fundamental do futebol: a conquista de algo – campeonato e taças.). A realidade (para começar como fez Manha acima), porém, é mais difícil de enfrentar quando se olha para as estatísticas e a própria realidade tal como é.

O Sporting tem sido de longe a equipa que melhor pratica futebol (como ainda agora ficou demonstrado com o domínio avassalador sobre o FC Porto). Tem mais golos marcados; leva seis jogos sem sofrer golos; tem o melhor marcador do campeonato; tem o melhor meio-campo do campeonato, constituído por três jogadores que estão num excelente momento de forma (que só por miopia do selecionador português não irão ao Mundial); tem o melhor guarda-redes do campeonato; e tem o melhor treinador do campeonato. Até há umas semanas, isto que se acaba de dizer era consensual. De umas semanas para cá, tudo isto tem sido posto em causa.

É facto: incomoda este Sporting, cria desconforto ver um Sporting avassalador (quase metade dos jogos deram em goleada). Até onde vai este Sporting, é a pergunta que os comentadores fazem de momento. Quais videntes, afirmam que o Sporting apenas lutará por um lugar na Liga dos Campeões. Como justificação, aduzem o plantel curto, a jovialidade dos jogadores, o facto de ser uma equipa em construção. Alguma vez estes comentadores param para pensar verdadeiramente? Não!

Vejamos: do facto de ser um plantel curto não se segue que não seja capaz de fazer face às adversidades que encontrará. Pelo contrário, um plantel curto sustenta mais competitividade entre os jogadores, da mesma forma que lhes garante mais possibilidade de jogar. O Barcelona é uma equipa que desde há anos tem um plantel curto e consegue fazer face a todas as competições em que está envolvido. Portanto, esse argumento não colhe.

A jovialidade dos jogadores também não pode ser justificação para o facto de não poder lutar pelo título. De facto, se olharmos o plantel ele é constituído por jogadores jovens mas com alguns anos de experiência de primeira liga. Logo, também não é justificação.

Quanto ao ser uma equipa em construção, esta é talvez a maior de todas as falácias. Lembremos o primeiro ano de Jorge Jesus no Benfica, cuja equipa era quase toda nova e mesmo assim ganhou o campeonato. Outro argumento que não colhe.

Não espantam, portanto, estas declarações. Quem está habituado a ouvir os comentadores e a ler os colunistas apercebe-se que não se pautam por um raciocínio coerente. Dizem e escrevem não apenas o que lhes convém ou o que lhes diz o coração, como, sobretudo, emaranham-se no discurso prolixo do futebolês com ares de intelectualidade saloia. Discurso que, além de ridículo, lhes tolhe o raciocínio na altura de abordar a realidade que se lhes apresenta.

Eis a realidade: o Sporting é primeiro na liga; é constituído por um conjunto de jogadores com garras para lutar até ao fim do campeonato pelo primeiro lugar; tem um treinador competente que está a fazer um excelente trabalho; e tem uma direção que, não obstante algumas declarações despropositadas, tem feito todos os esforços para por o Sporting no caminho certo.